
A anexina V é uma proteína de 37KD com capacidade de se ligar fortemente aos fosfolípides de carga negativa na superfície celular na presença de íons cálcio. Nos estudos de ativação plaquetária, a anexina V se liga à superfície das plaquetas ativadas. Assim como outras membranas celulares, a membrana plaquetária apresenta distribuição assimétrica dos fosfolípides de superfície. Em plaquetas não ativadas, 90% do total da fosfatidilserina presente na membrana está localizada na porção interna da camada bilipídica. Na ativação plaquetária, a maior parte da fosfatidilserina passa para a camada externa da membrana e forma uma superfíce pró-coagulante capaz de potencializar a formação de trombina.
No início da década de 90, descobriu-se que os anticorpos anti-fosfolípides (aPL) se ligavam in vitro com os fosfolípides somente na presença de plasma ou soro, de forma que se sugeriu a existência de algum cofator, necessário para sua ação. Demonstrou-se que este fator é a beta-2-glicoproteína 1 (B2GP1), também conhecido como apoproteína H. A B2GP-1 é um anticoagulante natural, já que inibe a via intrínseca da coagulação, a atividade da protrombinase e a agreagação plaquetária dependente de ADP. Embora várias investigações tenham demonstrado que grande parte dos aPL atuam mediante o reconhecimento deste cofator, estudo recentes mostraram que alguns podem ser patogênicos independentemente da B2GP1. Estudos demonstraram que os anticorpos anti-B2GP1 podem ter maior sensibilidade e especificidade na avaliação clínica de pacientes com síndrome anti-fosfolípide, já tendo inclusive sido descritos pacientes com valores baixos de aPL, mas positivos para B2GP1. Foi demonstrado, ainda, que os níveis de anti-B2GP1 diminuem significativamente durante o evento trombótico.
A anexina V, também denominada proteína anticoagulante placentária e endonexina II é uma proteína que, assim como a B2GP1, se liga a fosfolípides aniônicos exteriorizados na membrana para tornar sua superfície não trombogênica. Estudos realizados nos últimos anos conferiram grande importância à função da anexina V, que é encontrada no endotélio vascular e na placenta. Sabe-se que os fosfolípides de superfície podem ativar 3 complexos de fatores de coagulação. As reações desencadeadas levam à formação de trombina e, finalmente, de fibrina. A integridade funcional dos fosfolípides acelera, assim, a cascata de coagulação. Em pessoas sem aPL, a anexina V se liga com grande afinidade à superfície destes fosfolípides aniônicos, impedindo o contato dos fatores de coagulação. Quando os aPL estão presentes, se ligam aos fosfolípides (de forma direta ou indireta pela interação com a B2GP1), interferindo na capacidade de a anexina V se agrupar sobre a superfície dos mesmos, permitindo que mais ânions estejam disponíveis para servir de superfície aos fatores da coagulação, promovendo a trombogênese. A anexina V, assim, interfere ou compete com os aPL pelos fosfolípides de carga aniônica (sítio de ligação dos aPL).
A anexina V já foi localizada nas microvilosidades trofoblásticas da placenta e já se demonstrou que é consititutivamente expressa em culturas de trofoblasto, onde impede a trombose intervilosa, devendo promover o fluxo sangüíneo útero-placentário. Uma vez que a anexina V inibe a ligação dos anticorpos anti-fosfolípides ao complexo B2GP1-fosfolípides, foi sugerido que os aPL podem causar deslocamento da anexina V da superfície sinciciotrofoblástica e torná-la pró-coagulante.
Estudos recentes demonstraram que a anexina V está diminuída em pacientes com altas concentrações de anticorpos anti-fosfolípides (aPL) e com história de natimortos recorrentes ou perdas tardias da gestação. É possível, também, que a interferência mediada pelos aPL com a anexina V possa interferir no processo de formação do sinciciotrofoblasto, proporcionando um mecanismo alternativo para a função placentária anormal.
Estudo sobre a presença de anticorpos anti-anexina V em pacientes com LES encontrou maior incidência de trombose venosa ou arterial, óbito fetal e tempo aumentado de tromboplastina parcial ativada em pacientes com tais anticorpos. Os resultados confirmam que os anticorpos anti-anexina V podem se associar com eventos trombóticos. Outro estudo verificou maior prevalência de anticorpos anti-anexina V em mulheres com história de abortamentos de repetição e de falhas repetidas de FIV, quando comparadas com mulheres gestantes e não gestantes sem história de infertilidade.
Desta forma, a dosagem de anticorpos anti-anexina V constitui mais um útil instrumento de investigação de casos de infertilidade possivelmente associados a trombofilias
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